22jul/120

SNI investigou Marconi

 Renato Dias
Especial para o Jornal Opção/ De Brasília

 Mesmo após o fim da ditadura civil-militar (1964-1985), o Serviço Nacional de Informações (SNI) investigou o então líder estudantil e dirigente do PMDB Jovem do Estado Marconi Perillo (PSDB), hoje governador de Goiás. É o que apontam documentos obtidos com exclusividade pelo Jornal Opção no Arquivo Nacional, em Brasília.

Informe reservado R0112069, do ano de 1987, registra as nomeações de Marconi Ferreira Perillo Júnior, Antônio Faleiros Filho, Carlos Maranhão Gomes de Sá, Edson José Ferrari, Fleurymar de Sousa, Goiás do Araguaia Leite, Henrique Carlos Labaig, Jayro Rodrigues da Silveira, Marcos de Almeida Castro e Servito de Me­nezes Filho.

“As pessoas relacionadas foram designadas extraoficialmente ou nomeadas para integrarem a equipe de assessores de primeiro e se­gundo escalões do governo do Es­tado de Goiás. Tais elementos en­contram-se vinculados com organizações comunistas, ou são ativistas de esquerda, ou ainda com tendência política de esquerda”, relata o dossiê.

A ficha nº 0111776, de 1987, destaca que a ala santillista do PMDB teria ficado com 53% dos cargos de primeiro e segundo escalões do governo estadual. Ele traz perfil curto dos auxiliares do então governador do Estado, Henrique Santillo. Na lista, Marconi Perillo, Fernando Safatle, Antônio Faleiros, Iram Saraiva, Irapuan Costa Junior, Joaquim Roriz e outros.

O relatório R0124436, de 1988, mostra que Marconi Perillo teria sido observado, em 7 de outubro de 1988, por arapongas em um comício do PMDB de Goiás para a divulgação da nova Constituição e para homenagear o presidente nacional do partido, deputado federal Ulysses Guimarães. O documento traz também trechos de pronunciamentos, participantes e principais oradores.

O registro R A725213, de 1989, aponta que Marconi Perillo teria participado do XII Festival Mundial da Juventude, na República Popular Democrática da Coreia, em Pyongyang, Coreia do Norte, realizado de 1º a 8 de julho de 1989. “MP [Marconi Perillo] deve ser MFPJ [Marconi Ferreira Perillo Júnior]”. É o que anotou o agente do SNI.

Documento do SNI (0123602), seção estadual, refere-se à estrutura política de Goiás. Ano: 1988. Ele aponta a participação de Fernando Cunha Júnior, Fernando Safatle, Godofredo Sandoval, Línio de Paiva e Marconi Perillo na composição do primeiro escalão do Poder Executivo no Estado de Goiás. O levantamento foi realizado em agosto de 1988.

A Conferência do PMDB Jovem de Goiás, em 19 de maio de 1985, logo após o fim do regime civil-militar, foi bisbilhotada por arapongas do SNI. “A chapa vencedora, intitulada Unidade, foi apoiada pelo senador Henrique Antonio Santillo. Cerca de 200 pessoas teriam participado da convenção partidária”, afirma o informe confidencial.

“Durante o evento detectou-se a distribuição de farto material publicitário referente à convenção e aos partidos clandestinos de tendência socialista.” O agente secreto relata que houve a composição da executiva estadual e cita Marconi Perillo, Daniel Goulart, Gil­vane Felipe, Adalberto Mon­teiro e Nion Albernaz.

Reservado, o R0113062, de 1987, cujo título é “PMDB Jovem decide campanha por eleição presi­dencial em 1988”, demonstra que Marconi Perillo e Eurípedes Je­­rônimo da Silva, que anos de­pois iria presidir o diretório do PSDB de Goiânia, eram vigiados pelos agentes secretos.

“Em 11 de maio de 1987 o PMDB Jovem decidiu iniciar uma campanha por eleição direta para presidente da República e pelo voto aos 16 anos de idade, o fim da obrigatoriedade do serviço militar e a suspensão do pagamento da dívida externa.” Uma plataforma republicana e democrática com discreta influência socialista e comunista.

Marconi Perillo, José Izecias e Rogério Bernardes foram citados pelo relatório R0119090, na criação do PMDB Verde, em Goiás. O documento informa que o “Diretório Regional do Partido do Movimento Democrático Brasileiro no Estado de Goiás (PMDB-GO) lançou, no dia 2 de março de 1988, o PMDB Verde”. De linhagem ambientalista, ecológica.

A seção de Goiás do SNI, no R 0120510/1988, já aponta a formação de grupos políticos internos no PMDB para suposta “disputa velada” entre o governador Henrique Santillo e o ministro da Agri­cultura, Iris Rezende Machado, para as eleições estaduais de 1990. Marconi Perillo, Joaquim Roriz e Nion Albernaz aparecem no documento analítico.


Arapongas monitoraram Hen­rique Santillo e Marconi Perillo, no dia 25 de julho de 1988, em São Paulo, durante reunião do PMDB Nacional. “Segundo Marconi Fer­reira Perillo Júnior, presidente do PMDB Jovem, não houve a participação dos diversos setores do partido, por se tratar de um evento apenas com lideranças nacionais do PMDB.”

O SNI registra — R 0104899, de 1986 — participação de Marconi Perillo em convenção, na Assembleia Legislativa de Goiás, em 26 de janeiro de 1986. No ato, o PMDB elegeu seu diretório regional e a comissão executiva. No informe reservado R 0104334, de 1986, Marconi Perillo é citado como participante de fóruns sobre o Plano Nacional de Re­forma Agrária.

Monitorado por arapongas, no R 0118552, de 1988, ele é citado na estrutura política e administrativa do Estado de Goiás. Já no R 0123249, de 1988, é apontado por seu cargo à época no Governo do Estado, com mais dezenas de auxiliares do então governador de Goiás, Henrique Santilllo, também do PMDB.



Iris Rezende

O Arquivo Nacional guarda também amplo acervo sobre a trajetória política e administrativa do ex-prefeito de Goiânia, ex-governador do Estado de Goiás e ex-ministro da Agricultura e da Justiça Iris Rezende Machado (PMDB). O mais relevante é sobre sua cassação, em novembro de 1969, de seu mandato de prefeito de Goiânia.

O documento 0071894, de 1969, traz como título “Cassação de Iris Rezende Machado, prefeito de Goiânia”. Nomes: Iris Rezende Machado e Otávio Lage de Si­queira. “Informação (sic) com referência à atuação política e administrativa de IRM, os antecedentes de sua cassação, o ato cassassório (sic), a repercução (sic) pe­rante a (sic) opinião pública e a ques­tão sucessora (sic) para a Pre­feitura de Goiânia.”

Os informantes relatam em A 1147882, de 1978, a participação de Iris Rezende em reunião com políticos cassados: “Derval de Paiva, Eurico Barbosa, Iris Rezende e Mauro Borges”. O SNI de Goiás registrou em R 0061566, de 1983, encontro de Iris Rezende com o arcebispo de Goiânia, Fernando Gomes dos Santos.

“No Centro Administrativo, em Goiânia. Temas abordados na audiência: desemprego, questões fundiárias, situação carcerária e o problema (sic) educacional e social do Estado.” Informes reservados registram ainda supostas declarações de bens e movimentações financeiras e patrimoniais, que devem ser observadas com reserva, já que Iris Rezende era um governador de oposição ao Palácio do Planalto.

O Arquivo Nacional, que guarda o acervo dos serviços de informação do Estado brasileiro à época da ditadura civil-militar, possui dossiê do jornalista Pinheiro Salles com informações equivocadas. “Militou no POC, no RS, e na Var-Palmares. Atualmente, milita na ORMDS (Organização Revolu­cionária Mar­xista Democracia Socialista) e assina o jornal Em Tempo.

“Ele foi candidato a deputado estadual pelo Partido dos Tra­balhadores de Goiás, apoiado pelo Núcleo Paulo Freire, que é formado por professores da rede estadual de ensino, e pelo Núcleo Herzog, este composto por jornalistas petistas”, diz o relatório que traz carimbo de confidencial. Pinheiro Salles é ex-preso político e hoje mora em Goiânia.

“Militante do PC do B, responsável por inúmeros atos de subversão, ativista de movimentos de guerrilha em Goiás, tendo, em 1962, participado de ações de treinamento da Liga de Camponeses de Dianópolis, desbaratada em 1964. Visitou Cuba e China, onde fez curso de Política e História Militar.” Esse é um trecho do dossiê 0016688 do ex-deputado estadual Tarzan de Castro.

O Arquivo Nacional possui farto material sobre as atividades políticas de Tarzan de Castro e de sua mãe, Joaquina de Castro. “Retornou ao Brasil em 1966. Foi punido pelo AI-1, por subversão, em 1964. Em novembro de 1967 foi enquadrado na LSN (Lei de Segurança Nacional). Em 1968, asilou-se no Uruguai.”

Ex-prefeito de Goiânia, o filósofo Darci Accorsi possui ficha no Arquivo Nacional. Como militante da Var-Palmares, mesma organização política da presidente da República, Dilma Rousseff. “Darci Accorsi, em 1969, era militante da Var-Palmares. Em 1972, chegou a Itapuranga integrando um grupo de missionários provenientes do Rio Grande do Sul.”

Jornalistas

Editor-chefe do Jornal Opção, o jornalista Euler de França Belém é citado em dois prontuários: por suposta atuação no movimento estudantil na Universidade Federal de Goiás (UFG), no ano de 1983, e por integrar, em 1988, a redação de um veículo de comunicação em Goiânia. Proprietário do “Diário da Manhã”, Batista Custódio possui dossiês fabricados pelo SNI. Engenheiro, Martiniano Cavalcante é “acusado” de ser membro da Ala Prestista do PCB e de dirigir o PLP [Partido da Libertação Proletária]. O acervo dos órgãos de informação mantém registros até 1998, apurou o Jornal Opção.

Histo­ria­dor e professor da Universidade Federal Fluminense Daniel Aarão Reis Filho possui fotografias e era vigiado — mesmo 13 anos depois do fima da ditadura civil-militar. O relatório do SNI A 0807576, de 1998, mostra que no dia 6 de novembro de 1997, na Livraria Dazibao, no Rio de Janeiro, ele teria lançado o livro “Uma Revolução Perdida — A História do Socialismo Soviético”, de sua autoria. “O livro foi editado pela Fundação Perseu Abramo, do PT”, anotou o agente. Eram os anos de Fernando Henrique Cardoso no Palácio do Planalto.

 

Renato Dias, jornalista e sociólogo, é colaborador do Jornal Opção.