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Ex-presidente Lula, mesmo sem voz, caça votos para seus aliados

 

Com a voz fragilizada pela terapia contra o câncer, e ainda com um edema na garganta, o ex-presidente já não arrebata multidões em comícios, mas entrou na reta final da campanha, subiu em palanques de Norte a Sul para confrontar “os inimigos” e contra todas as previsões, inclusive as do Partido dos Trabalhadores, conduziu o seu candidato Fernando Haddad ao segundo turno da eleição em São Paulo

Ele voltou. Chegou à reta final e contra todas as previsões — principalmente, as do próprio PT — guiou o candidato Fernando Haddad ao segundo turno da disputa pela prefeitura de São Paulo, que detém o terceiro maior orçamento da República. O resultado obtido em São Paulo é essencial para Lula, porque tem dimensão política suficiente para atenuar o impacto dos erros determinantes à derrota do PT em redutos eleitorais importantes, como aconteceu em Recife.

— Estou feliz de poder dizer para meus inimigos que estou vivo e que eles ainda vão me ver por muito tempo — repetiu durante as últimas cinco semanas de campanha em São Paulo, na Bahia, em Minas e no Amazonas.
Foram dois anos sem subir num palanque. Em outubro do ano passado, quando começou o bombardeio quimioterápico de um tumor na laringe, Lula parou de falar em público.

Nada mais depressivo para um político habituado a fazer no mínimo um discurso diário, por meia hora, nos oito anos em que esteve na Presidência da República. Fez mais de 2.500 em 96 meses de mandato, segundo a contabilidade dos pronunciamentos oficiais, que não inclui os da maratona de reeleição (2006) e os da campanha para eleger Dilma Rousseff (2010).

Depois de passar metade da vida falando para multidões, Lula viu-se limitado a sonhar com microfones. E, nessa síndrome de abstinência, os sonhos viravam pesadelos — contou na dezena de comícios nos últimos 40 dias:

— Não tinha medo de morrer, tinha medo de viver sem poder fazer discurso. Se morre, enterra, e acabou. Mas eu não posso viver sem fazer discurso...

Aos 67 anos, perdeu a barba, símbolo de uma identidade visual cuidadosamente cultivada durante décadas. Agora ela é uma de suas dúvidas sobre o futuro. Quando ergue o pescoço, exibe as cicatrizes da cirurgia para extração do tumor, na altura da glote. Antes de sair de casa, faz uma série de exercícios vocais receitados pelo fonoterapeuta. Começa a falar sempre com voz baixa, num timbre diferente, quase metálico.
— Ainda tem um edema na garganta — explica, apelando à compaixão da audiência. — Não estou com aquela bola toda, não posso falar do jeito de antes, gritando muito, porque não tenho mais o vozeirão. E avisa: — Daqui a pouco, eu começo a tossir e sou obrigado a parar.

Quem acompanhou os últimos comícios de Lula pôde perceber que a novidade não estava apenas no pregador convalescente, sempre queixoso das limitações na eloquência com a qual até pouco tempo atrás arrebatava multidões.

Envelhecido, mais gordo, e muito preocupado com as cordas vocais, apresentou-se no palco como pálida imagem daquele orador que em 1979, por exemplo, foi capaz de falar sem microfone, reproduzido, palavra por palavra, pela multidão dentro do estádio de São Bernardo: os espectadores, metalúrgicos então em greve, repetiam cada frase sua, para que todos ali pudessem escutá-lo.

Desta vez, a novidade também estava no público. Nesse primeiro turno eleitoral, Lula encontrou plateias escassas, compostas por grupos de militantes vestidos, embandeirados e transportados pelos organizadores dos eventos. Aconteceu em São Bernardo, Santo André, Diadema, Osasco e Campinas, em bairros pobres de São Paulo, em Belo Horizonte, Salvador e em Feira de Santana.

O governo baiano precisou mobilizar aliados nos municípios vizinhos a Feira de Santana para conseguir garantir uma audiência de quase mil pessoas num fim de semana. Em Diadema, frequentada por Lula desde 1969, quando distribuía panfletos sindicais nas portas de fábricas, vendedores ambulantes reclamavam dos prejuízos no comício em uma praça semivazia, numa noite de domingo.

Quando começa a falar, logo recorre a um copo de água. Pequenos goles e bochechos marcam as pausas. Os improvisos não somam 15 minutos, e a rouquice surge ao se exaltar, na arenga sobre os “inimigos”. Lula viajou de Norte a Sul exalando ressentimento, comparando os adversários à própria doença:

— Estou feliz porque o câncer está derrotado, assim como derrotados estarão os nossos inimigos.
Nem ligou para a estratégia partidária. Com 316 prefeitos lutando pela reeleição em todo o país, o PT escolhera 117 cidades como prioritárias — todas com população acima de 150 mil habitantes, incluindo capitais. Lula decidiu sua agenda de comícios, baseando-se apenas no desejo de confronto com os “inimigos”.
Foi a Manaus por causa de Arthur Virgílio, ex-líder do PSDB no Senado na época do mensalão. Desembarcou em Salvador porque queria confrontar Antônio Carlos Magalhães Neto, ex-líder do DEM na Câmara e que se destacou como sub-relator da CPI dos Correios.

— Mesmo que eu não o conhecesse, nem nunca o tivesse visto, mas soubesse quem é o seu adversário, viria aqui do mesmo jeito só para ajudar a derrotá-lo! — disse aos candidatos a prefeito do PT, em Salvador, e do PCdoB, em Manaus.

Com as cordas vocais fragilizadas, já sem a caneta e o Diário Oficial nas mãos, transparecia ansiedade por ter seu nome e legado recordados em público. Prolixo no autoelogio, passou a ser saudado como “o maior líder político do planeta” por seguidores como o deputado federal Vicentinho (PT-SP), e até venerado como “deus” pela senadora Marta Suplicy.

Expurgou a palavra “mensalão” da retórica, mantendo-se indiretamente verboso sobre o caso em que paira, onipresente, no julgamento do Supremo Tribunal Federal. Apresentou-se como vítima, e com revolta incontida em relação às “elites brasileiras”, a minoria detentora de algum poder e influência da qual, paradoxalmente, se tornou um dos mais legítimos representantes:

— As elites não brincam em serviço. Em 2005 (na crise do mensalão), eles tentaram dar um golpe no meu governo. Tentaram, como tentaram dar, e como deram, no João Goulart. Como tentaram dar no Juscelino (Kubitschek), como levaram o Getulio Vargas à morte.

Acrescentava: — Só que eles estavam lidando com uma pessoa diferente. Não sabiam que tinha um Lula em Brasília mas, também, mais milhares de Lulas nas fábricas, nas escolas, vestido de mulher, de homem, de índio…

Por coincidência, quando os ministros do STF começaram a julgar dirigentes de partidos aliados ao governo, etapa prévia ao exame da culpa da cúpula petista, Lula passou a falar em “gratidão” nos palanques:
— Gratidão é uma palavra nobre, que nem todo mundo conhece. A gente reconhecer quem fez as coisas é algo muito grande.

Grata mesmo é Dilma Rousseff, admitiu São Bernardo. A cidade de Lula é governada por Luiz Marinho, seu antigo aliado no Sindicato dos Metalúrgicos, e foi a mais beneficiada pelos cofres federais durante o ano passado. A prefeitura recebeu R$ 122 milhões, o equivalente a R$ 159,20 por cada um dos seus 765 mil habitantes. Ou seja, proporcionalmente, São Bernardo ganhou 35% mais recursos federais que o Rio, cuja população é oito vezes maior, e 57% a mais que São Paulo, que tem 14 vezes mais habitantes.
Dilma pavimentou a estrada para a reeleição de Marinho, que obteve 65,7% dos votos e é o preferido de Lula para disputar o governo de São Paulo em 2014.

Marinho desconversa e, ao lado de Lula, anunciou que o candidato será Aloizio Mercadante, ministro da Educação. Ninguém no PT acredita, mas é uma questão para o futuro.O problema de Lula, agora, é o segundo turno paulistano. Sobram-lhe comícios, mas a voz é frágil. O ex-presidente luta para continuar tendo ressonância na política.Informações de O Globo.