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GDF mobiliza 250 PMs para desocupar Torre Palace; grupo promete resistir

Integrantes do MRP puseram colchões e pneus na cobertura do edifício.Prédio junto ao Eixo Monumental foi ocupado em outubro do ano passado

 Do G1 DF
Policiais negociam desocupação no Hotel Torre Palace, em Brasília (Foto: Pedro Borges/G1)

Policiais negociam desocupação no Hotel Torre Palace, em Brasília (Foto: Pedro Borges/G1)

Cerca de 250 policiais militares do Distrito Federal estão mobilizados desde a manhã desta quarta-feira (1º) para a desocupação do hotel Torre Palace, no centro de Brasília. A saída estava prevista para acontecer durante a tarde, mas o grupo ainda negociava com a PM até as 18h30. Pela manhã, os ocupantes disseram que só deixariam o local quando o governo oferecesse uma opção permanente de moradia.

Parte do Eixo Monumental e outras vias próximas ao prédio foram bloqueadas pela manhã. Até as 18h30, pelo menos quatro pessoas haviam sido detidas por xingarem PMs, desobedecerem a ordem de deixar o prédio e tentar invadir o local.

Se subirem, a gente vai estar preparado, com colchão, pneu, o que for preciso. Não vamos sair porque não deram outro lugar para a gente ficar"Ylka Carvalho,líder do Movimento de Resistência Popular

No fim da tarde, bombas de fabricação caseira foram lançadas de cima do prédio em direção aos militares. Os artefatos, conhecidos como "cabeção", estouraram perto dos carros do Corpo de Bombeiros e da PM. Ninguém ficou ferido.

Os ocupantes do hotel querem prorrogação da assistência habitacional do GDF, de R$ 600, oferecida por até um ano. O Executivo diz não haver possibilidade de estender o benefício. No prédio, fechado há anos e depredado, vivem famílias com crianças. O local também é conhecido como "hotel do crack" devido à presença de viciados em drogas.

Por volta das 15h, um grupo de dez pessoas (incluindo duas crianças) pedia reunião com o GDF. A pauta não foi informada, mas a PM afirmou ao G1 que o encontro "estava sendo providenciado".

Um coordenador do MRP, conhecido como "Zé", conversou por cerca de dez minutos com os negociadores do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM e retornou ao prédio em seguida, pouco antes das 16h. Ele não quis conversar com a imprensa.

Devido à operação da polícia, era possível ver integrantes do MRP carregando pneus e botijões de gás até a cobertura do prédio. Um grupo de manifestantes chegou a queimar objetos em um dos andares do edifício.

Invasores de hotel abandonado no centro de Brasília colocaram pneus, botijões de gás e colchões nos andares mais altos do prédio (Foto: Gabriel Luiz/G1)

Invasores de hotel abandonado no centro de Brasília colocaram pneus, botijões de gás e colchões nos andares mais altos do prédio (Foto: Gabriel Luiz/G1)

"Se subirem, a gente vai estar preparado, com colchão, pneu, o que for preciso", afirmou a líder do movimento, Ylka Carvalho. "Não vamos sair porque não deram outro lugar para a gente ficar."

Por volta das 16h40, dois homens conseguiram burlar o cordão de segurança e invadir o prédio. Segundo a PM, um deles era morador de rua e voltou a descer minutos depois. Ele foi levado a uma van de apoio da PM para prestar informações. A corporação não soube dizer se o outro invasor era morador do espaço.

A Secretaria de Segurança Pública informou que existe uma autorização de segunda instância do Tribunal de Justiça do DF prevendo intervenção das equipes do GDF em ações de saúde pública e segurança.

Ylka disse que as equipes de segurança do governo do DF quiseram entrar no prédio alegando que seria preciso fazer a dedetização do imóvel. "Não quisemos deixar ninguém entrar porque vieram com a polícia. No mês passado, conseguiram dedetizar sem chamar a polícia. Então por isso desconfiamos", declarou.

Policiais militares fazem cordão de isolamento perto de hotel ocupado e fecham Eixo Monumental (Foto: Gabriel Luiz/G1)

Policiais militares isolam vias próximas a hotel abandonado no centro de Brasília, alvo de operação de reintegração de posse (Foto: Gabriel Luiz/G1)

Segundo o coronel Antônio Carlos Freitas, porta-voz da PM, a corporação só foi acionada pela Defesa Civil às 9h após um grupo de 12 pessoas – entre 30 ocupantes – se recusar a deixar o local durante a dedetização.

"Eles disseram que não iriam sair mesmo com a utilização do veneno. Estão com pneus, colchões, botijão de gás, que pode inflamar. Como há uma criança de colo e uma de 5 anos, resolvemos acionar todos os mecanismos necessários", afirmou o coronel.

De acordo com o militar, após a desocupação, os donos do hotel serão orientados para reforçar a segurança do prédio para evitar que seja invadido novamente.

Cerca de 30 manifestantes do Ocupa MinC, grupo que ocupou a Funarte em protesto contra a então extinção do Ministério da Cultura pelo presidente em exercício, Michel Temer, reforçaram o ato de resistência dos invasores. Eles se posicionaram em frente à 11 polícias e cantam "todo camburão tem um pouco de navio negreiro" e "ocupa e resiste".

Funcionários de um hotel vizinho ao Torre Palace disseram que a ocupação constrangia os hóspedes. "Muitos pediam para trocar de quarto para não ficar de frente para isso. Já perdemos muitas empresas, muitos eventos por causa da ocupação", disse um empregado.

Outro relatou ao G1 que já teve a roda do carro furtada e o vidro quebrado por invasores. "Como ali funciona um ponto de venda de drogas, assusta muito."

Pouco após a primeira rodada de negociações, por volta das 16h30, equipes de presidiários em regime semiaberto acionadas pela Agefis chegaram ao local para erguer um muro de concreto em redor do hotel.

A obra começaria após a desocupação, mas os planos foram suspensos pelo órgão porque o grupo foi agredido pelos invasores com pedaços de telha, concreto e um pneu em chamas. Não há data prevista para a retomada da ação.

Morte, drogas e furtos

O corpo de um homem de cerca de 20 anos foi encontrado na madrugada de 12 de março em frente ao Torre Palace. A namorada do rapaz, de 17 anos, disse à polícia que eles estavam no sétimo andar do prédio para usar drogas, mas, depois de uma discussão, o deixou sozinho em um quarto no sétimo andar. Depois, ela disse não tê-lo visto mais.

Congresso Nacional visto de hotel abandonado no centro de Brasília (Foto: Vianey Bentes/TV Globo))

Congresso Nacional visto de hotel abandonado no centro de Brasília (Foto: Vianey Bentes/TV Globo)

Vizinhos ao estabelecimento reclamam que o índice de crimes aumentou na região após a instalação de 200 pessoas no local. Equipes da Polícia Militar foram deslocadas para a área para reforçar a segurança.

O imóvel é avaliado em R$ 35 milhões e fica próximo a alguns dos principais cartões postais deBrasília, como a Torre de TV e o Estádio Mané Garrincha, e vista para a Esplanada dos Ministérios, o Congresso Nacional e a Catedral de Brasília.

Cama em quarto de hotel abandonado em Brasília (Foto: Vianey Bentes/TV Globo)

Cama em quarto de hotel abandonado em Brasília (Foto: Vianey Bentes/TV Globo)

Com 14 andares e 140 apartamentos, o hotel foi abandonado em 2013, após disputa entre herdeiros do fundador do hotel, o empresário libanês Jibran El-Hadj, morto em 2000.

O Tribunal Regional do Trabalho chegou a definir 28 de março como data para leilão do hotel. Os proprietários deviam R$ 120 mil em multas por descumprimento de acordo com o Ministério Público do Trabalho, após constatada dívida com os funcionários. O certame foi suspenso.

Torre de TV e Parque da Cidade vistos de hotel abandonado em Brasília (Foto: Vianey Bentes/TV Globo)

Torre de TV e Parque da Cidade vistos de hotel abandonado em Brasília (Foto: Vianey Bentes/TV Globo)