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PM leva familiares de invasores para tentar retirada do Torre Palace, no DF

Pai de mulher com filha de 3 meses no prédio participou de negociação.Ação dura mais de 100 horas; Nove adultos e quatro crianças estão no local

Policiais militares fazem cordão de isolamento perto de hotel ocupado e fecham Eixo Monumental (Foto: Gabriel Luiz/G1)

Policiais militares fazem cordão de isolamento perto de hotel ocupado e fecham Eixo Monumental(Foto: Gabriel Luiz/G1)

 Do G1 DF

A Polícia Militar do Distrito Federal levou na manhã deste sábado (4) familiares de invasores do hotel Torre Palace para tentar convencer o grupo a deixar o prédio abandonado. O pai de uma jovem de 21 anos, que está no local com a filha de 3 meses, conversou com a filha, mas não conseguiu convencê-la a sair.

A irmã de outra pessoa que está no edifício também foi levada pelos policiais para ajudar nas negociações, mas também não houve sucesso. O hotel é ocupado por movimentos sociais desde outubro do ano passado.

A ação de reintegração de posse teve início na última quarta (1º) e já dura mais de 100 horas.

Neste sábado, nove adultos e quatro crianças permaneciam no local. Devido à operação, o acesso pela via N1 foi interrompida entre o trecho próximo a Agefis e a Torre de TV. Parte da W3 Norte também foi fechada. O bloqueio ocorre em um raio de 150 metros, incluindo seis faixas do Eixo Monumental e três pistas internas do Setor Hoteleiro Norte.

Os invasores têm jogado objetos na via, afirma a secretaria de Segurança Pública. Segundo ela, o objetivo é que eles "deixem espontaneamente o prédio", que teve o fornecimento de energia elétrica e de água interrompidos.

Nesta sexta, a pasta identificou que duas das crianças, de 7 e 8 anos, estavam com asma. Uma equipe médica do Corpo de Bombeiros é mantida de prontidão para atendê-las. O juiz da Vara da Infância e do Adolescente, Renato Rodovalho Scussel, determinou a busca e apreensão imediatas dos quatro menores de idade.

A decisão teria sido motivada pelo estado de "vulnerabilidade" identificado na invasão, que já ultrapassava 54 horas até o fim da tarde de sexta. A secretária de Segurança Pública do DF, Márcia de Alencar, disse à reportagem da TV Globo que o método usado para cumprir a decisão judicial seria definido pelo Comando de Gerenciamento de Crise da Polícia Militar.

Também na sexta, o ex-deputado distrital e federal José Edmar foi detido por tentar doar mantimentos ao grupo. O político furou o bloqueio da PM levando uma caixa com produtos como sardinha, ovos, água, álcool de cozinha e pão. Ele pode responder por desobediência. Ao G1, Edmar disse que ficou sensibilizado ao ver que havia crianças no hotel sem alimentos e sem água.

O ex-deputado José Edmar, que foi preso em Brasília depois de tentar doar alimentos a grupo que resiste à desocupação de hotel abandonado (Foto: Corpo de Bombeiros DF/Divulgação)

O ex-deputado José Edmar, que foi preso em Brasília depois de tentar doar alimentos a grupo que resiste à desocupação de hotel abandonado (Foto: Corpo de Bombeiros DF/Divulgação)

Entre os adultos que permanecem no local está o líder do Movimento de Resistência Popular, Edson Silva, preso em dezembro do ano passado por suspeita de extorquir dinheiro de integrantes de movimentos sociais. O homem está em liberdade provisória e aparece em imagens feitas pela TV Globo no local. Ele sempre negou as acusações.

Terceiro dia da operação policial para retirada dos ocupantes do Hotel Torre Palace, na região central do Plano Piloto (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Hotel Torre Palace (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Silva é apontado pela polícia como o responsável por forçar um grupo de 80 pessoas, filiadas ao movimento, a pagar entre R$ 50 e R$ 300 aos líderes do MRP. O movimento ocupa o hotel desde outubro do ano passado.

Na época da prisão, a polícia tinha informado que Edson Silva levava uma vida confortável de classe média. Com o dinheiro supostamente conseguido com o esquema, ele teria comprado um carro avaliado em R$ 85 mil e morava com a mulher em um apartamento em um edifício com área de lazer completa e junto a um parque em Taguatinga. Silva tinha sido preso com outras seis pessoas, incluindo a mulher, Ylka Carvalho.

Para o delegado Luís Henrique Sampaio, titular da delegacia de Repressão ao Crime Organizado, o patrimônio dos suspeitos não condizia com a realidade deles, que diziam militar por moradia. "O líder ocultava essa riqueza. Quando ele ia para o acampamento, passava com o carro longe, porque tinha medo de chamar a atenção."

Material apreendido com grupo do MRP (Foto: Gabriel Luiz/G1)

Material apreendido com grupo do MRP conta com armas, facão e dinheiro (Foto: Gabriel Luiz/G1)

Para cobrar o dinheiro, que vinha do recebimento do auxílio-aluguel (de R$ 600) e que era pago pelo governo do DF, os líderes do MRP lançavam mão da violência, disse o investigador. “Era um grupo de jagunços que não media esforços. Ameaçavam as pessoas, inclusive com armas, para que pagassem”, afirmou o delegado. Ele informou que o esquema funcionava havia pelo menos cinco meses.

O líder ocultava essa riqueza. Quando ele ia para o acampamento, passava com o carro longe, porque tinha medo de chamar a atenção"Luís Henrique Sampaio, titular da delegacia de Repressão ao Crime Organizado

Com o grupo, a polícia apreendeu quatro armas de fogo, uma espada e R$ 26 mil. Três pessoas ainda estão sendo procuradas. Segundo o delegado, o vice-líder do movimento ainda está foragido.

Ainda segundo o delegado, um dos presos tinha passagem por homicídio e outro já cumpria pena em regime aberto.

Paralelamente à cobrança de dinheiro de integrantes do MRP, os suspeitos ainda vendiam drogas, complementou o delegado. A investigação da polícia partiu de uma integrante do movimento que teria se sentido coagida.

Centenas de integrantes do Movimento Resistência Popular ocupam o Hotel St. Peter, que estava desocupado há meses após ordem de despejo, na região central de Brasilia. O grupo sem-teto pede que o governo do DF volte a pagar o auxílio-aluguel (Foto: Joel Rodrigues/Frame/Estadão Conteúdo)

Integrantes do Movimento Resistência Popular ocupam o Hotel St. Peter em setembro (Foto: Joel Rodrigues/Frame/Estadão Conteúdo)

O grupo é o mesmo que ocupou o hotel Saint Peter em setembro – que ofereceu emprego de gerente com salário de R$ 20 mil ao ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu, condenado no mensalão, e foi palco para o sequestro de um funcionário do ano passado. “[De lá] Foram subtraídos muitos objetos. Os melhores, como televisores e chuveiros, ficavam com a liderança”, disse o investigador.

“Eles devem ter recebido R$ 150 mil [com o esquema]”, estimou. Os suspeitos vão responder por organização criminosa armada, furto e extorsão. Eles podem pegar até 30 anos de prisão. Mesmo com a prisão dos líderes, a polícia diz que cerca de 100 integrantes do movimento permanecem no hotel Torre Palace, ocupado desde 23 de outubro.

Invasores de hotel abandonado no centro de Brasília colocaram pneus, botijões de gás e colchões nos andares mais altos do prédio (Foto: Gabriel Luiz/G1)

Invasores de hotel abandonado no centro de Brasília colocaram pneus, botijões de gás e colchões nos andares mais altos do prédio (Foto: Gabriel Luiz/G1)

Negociação

Deputados federais do PT, representantes do GDF e da Polícia Militar se reuniram com os invasores na área interna do hotel, em uma tentativa de acordo, na quarta. O grupo disse que só deixaria o local, conhecido como "hotel do crack" quando o governo oferecesse uma opção permanente de moradia.

Pelo menos quatro pessoas foram detidas por xingarem PMs, desobedecerem a ordem de deixar o prédio e tentar invadir o perímetro de isolamento nesta quarta. No fim da tarde do primeiro dia da operação, bombas de fabricação caseira foram lançadas de cima do prédio em direção aos militares. Os artefatos, conhecidos como "cabeção", estouraram perto dos carros do Corpo de Bombeiros e da PM. Ninguém ficou ferido.

Devido à operação da polícia, era possível ver integrantes do MRP carregando pneus e botijões de gás até a cobertura do prédio na tarde desta quarta. Um grupo de manifestantes chegou a queimar objetos em um dos andares do edifício.