10jul/120

Prefeito de Palmas: “Sou um boi expiatório”

O prefeito de Palmas, Raul Filho (PT), negou ter qualquer tipo de envolvimento com o contraventor Carlinhos Cachoeira, em depoimento prestado nesta terça-feira à CPI que apura as relações do bicheiro com empresários e políticos. Raul Filho explicou que foi apresentado a ele por duas vezes, em 1994 e em 2004, mas não firmou qualquer tipo de compromisso.

Raul também decidiu deixar à disposição da comissão seus sigilos bancário, fiscal e telefônico. Pressionado pelos parlamentares, o prefeito chegou a dizer que estavam colocando ele como um “boi expiatório” neste caso. Raul aparece em um vídeo de 2004, divulgado pela PF, negociando com o contraventor. Sobre este fato, ele disse aos membros da CPI que seu “azar foi ser filmado”.

 - O Cachoeira nunca fez doação para a minha campanha, conforme comprova a minha prestação de contas. Nenhuma empresa do Cachoeira venceu qualquer licitação durante o meu governo...
 Raul falou como foi apresentado a Cachoeira, em 1994:
 
- Conheci ocasionalmente em Goiânia, em 1994. Eu era candidato a deputado estadual. Na época, apenas fomos apresentados, não me lembro se almoçamos ou se fizemos algo. Foram dois encontros, sendo que o segundo ocorreu dez anos depois.
 
Quanto ao segundo encontro, Raul explicou que, em 2004, seu amigo Sílvio Roberto, disse que precisavam ir a Brasília para tentar conseguir recursos de campanha, mas “só soube que iria encontrar Cachoeira no caminho para Anápolis”.
 
Sobre os contratos feitos com a Delta (seis, no total, na área de recolhimento de lixo), ele afirmou que não há nenhuma irregularidade. Ele também negou ter qualquer tipo de envolvimento com os diretores da construtora.
 
O prefeito disse que o show do cantor Amado Batista, durante um comício de campanha, não foi pago por contraventor. De acordo com Raul, o show foi pago por uma empresa de Araguarina (TO), da qual não se recorda o nome.
 
Quanto os R$ 120 mil depositados na conta de uma assessora da deputada Solange Duailibe (PT), o prefeito disse que refere-se à venda de uma máquina que Jair Júnior, irmão da deputada, que é mulher do prefeito, teria feito. De acordo com Raul Filho, Jair Júnior não tem conta bancária porque responde a um processo e, por isso, abriu uma conta em nome da funcionária de Solange para que ele pudesse movimentar. Raul Filho declarou que a empresa que depositou os R$ 120 mil - ele não disse o nome - faz parte do esquema da construtora Delta.
 
Discussões
 
Indagado pelo senador Álvaro Dias (PSDB) sobre os contratos com a Delta, que teriam sido reprovadas pelo Tribunal de Contas, Raul Filho explicou que não houve irregularidade nas contratações dos serviços. Então o senador disse o prefeito estava “abusando da capacidade dos parlamentares de serem ingênuos”, o que provocou discussão entre os deputados e senadores.
 
Na vez do deputado Rubens Bueno (PPS-PR) fazer as indagações, uma pessoa, identificada apenas como um funcionário da Prefeitura de Palmas, reagiu às perguntas, provocando tumulto entre os presentes.
 
- Difícil é um senador dizer que não viu um vídeo e vir falar sobre ele – gritou o servidor.
 
- Ou foi um servidor da Prefeitura de Palmas, ou foi um jagunço do prefeito - disse Bueno, após os seguranças retirarem o servidor.
 
Polêmica
 
A CPI abriu os trabalhos nesta terça-feira com uma polêmica. Antes de ouvir o depoimento de Raul Filho (PT), os parlamentares levantaram um questionamento sobre a divulgação desse material. O senador Pedro Taques (PDT-MT) pediu que o presidente da CPI, senador Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB), autorizasse a exibição das imagens para a comissão. Vital, no entanto, disse que ainda não tinha juízo formado sobre o assunto.
 
O vice-presidente da CPI, deputado Paulo Teixeira (PT-SP), se posicionou contrário à ideia.
 
- Não vejo necessidade. Se é algo de domínio público, todos conhecem - declarou.
 
O deputado Maurício Quintela Lessa (PR-AL) corroborou Teixeira.
 
- O que Taques esta pedindo agora pode servir, mais à frente, para constranger testemunhas.
 
Mas a oposição não aceitou as alegações. O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) afirmou que a exibição de vídeo é diferente do material de áudio disponível na CPI e transcritos pela Polícia Federal.
 
- Colocar o áudio que podemos ler é diferente de colocar o vídeo que podemos ver. Teremos mais de 50 vídeos. Num vídeo, semblantes, falas, tudo pode ser diferente. Adotarmos hoje a postura de não colocarmos vídeo, seria tolher capacidade investigativa desta comissão.
 
Mas o presidente da CPI não cedeu. Ele argumentou que o vídeo foi gravada de forma ilícita e, portanto, não merece ser acolhido como prova.Informações de O Globo