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Rio: A Câmara dominada

Manifestantes protestam contra composição da CPI dos Ônibus e tomam plenário da Casa 

 

 Passava um pouco das 14h de ontem quando o presidente da Câmara do Rio, Jorge Felippe, e os vereadores Chiquinho Brazão e Professor Uóston, todos do PMDB, usaram uma pequena escada, uma verdadeira saída de emergência, para abandonar a casa legislativa pela porta dos fundos, após quase três horas trancados. O relógio do plenário, ocupado por manifestantes desde a manhã, não exibia os ponteiros: estava tapado pelo desenho de uma pizza. E foi assim, com o Palácio Pedro Ernesto tomado pela população, que transcorreu o dia após o fim da primeira reunião da tão falada CPI dos Ônibus, idealizada pelo vereador Eliomar Coelho (PSOL) para investigar as entranhas do sistema de transporte rodoviário carioca.

A revolta cresceu quando o proponente - e único dos cinco membros a apoiar a criação da comissão - foi alijado dos dois principais cargos: o de presidente, que ficou com Brazão, e o de relator, conquistado por Uóston. À noite, os manifestantes mantinham-se irredutíveis e exigiam a presença de negociadores. A 6ª Vara de Fazenda Pública, por sua vez, negou o pedido de reintegração de posse.  

A história começou, na verdade, no fim da noite de anteontem e adentrou a madrugada. Do lado de fora da Câmara, bombas de efeito moral haviam sido lançadas pela PM, na quinta-feira, para dispersar os militantes concentrados nos arredores - alguns tentavam invadir o prédio histórico. Cadeiras do tradicional restaurante Amarelinho, que fica ao lado, foram quebradas e espalhadas pela calçada, retratando bem o clima.

Do lado de dentro, porém, cerca de 25 pessoas, que haviam assistido a uma sessão no plenário à tarde e anunciado a disposição de ficar ali indefinidamente, resistiam pacificamente. Até que, por volta de 4h, a Procuradoria da Casa conseguiu a reintegração de posse na Justiça e todos saíram, de forma ordeira. Um acordo verbal fez mudar o local da reunião da CPI, marcada para o início da manhã de ontem: do pequeno auditório, com espaço para não mais do que 50 pessoas, passaria para o Salão Nobre, onde caberiam mais de 150.....

 Fila na entrada se formou às 8h

Se a madrugada tinha terminado bem, uma fila na entrada da Câmara desde 8h de ontem prenunciava problemas. Irritados, os manifestantes voltaram e gritavam que queriam entrar logo. A sessão foi marcada para 9h, mas apenas às 9h10m a segurança começou a liberar o acesso a grupos de dez, cujos integrantes tinham que se identificar individualmente. Minutos antes das 9h30m, Eliomar Coelho, para não ferir o prazo regimental de meia hora, abriu a reunião da CPI. No Salão Nobre, havia um número recorde de vereadores para um primeiro encontro de comissão: 20, além dos cinco que estavam sentados à mesa para iniciar os trabalhos. Os espectadores não eram mais do que 50.

 

Alertado sobre as mais de 150 pessoas ainda do lado de fora, Eliomar pediu a interrupção da sessão por 20 minutos. Mas não demorou, e os governistas a reabriram. Sob intensas vaias do público e com o presidente, Jorge Felippe, bradando "votem logo, votem logo!", Renato Moura (PTC), Jorginho da SOS (PMDB) e Uóston elegeram em menos de um minuto o presidente.

 

- Meu voto é de Chiquinho Brazão! - entoaram os três em sequência.

 

Depois de Brazão, também em segundos, Uóston foi eleito relator por seus pares. O clima esquentou. Inconformado, Eliomar deixou o Salão Nobre e foi discursar nas escadarias. Não sem antes declarar:

 

- Eu voto em mim para a presidência!

 

Terminada a sessão, os manifestantes barrados do lado de fora puderam entrar. Mais de 200 se espalharam. O primeiro grande alvo foi o gabinete de Chiquinho Brazão, no 7º andar, que foi pichado. Pelos corredores e escadas, cartazes foram colados, com mensagens que iam da CPI em si à campanha "Cadê Amarildo?".

 

Vereadores ficam em cárcere privado

Depois do gabinete de Brazão, um grupo ocupou o plenário e montou trincheira. Em frente à cadeira do presidente da Câmara, foi estendida uma bandeira rubro-negra, uma referência anarquista. As discussões de vereadores - que, por sinal, não acontecem às sextas - deram lugar às "plenárias", com direito a "deliberações", dos manifestantes. Havia de tudo: dos sem-partido a estudantes militantes do PSOL e simpatizantes do PSTU, entre outros. Numa das "deliberações", decidiram que a imprensa só poderia permanecer no local se não fotografasse ou passasse informações em tempo real. Os jornalistas se recusaram e foram convidados a sair.

 

Um dos episódios mais marcantes do dia foram as três horas de cárcere privado por que passaram Uóston, Chiquinho Brazão e Jorge Felippe na sala da presidência. Pouco depois de convocarem a imprensa para uma entrevista coletiva, eles não puderam sair porque um grupo de 50 descobriu onde estavam e bloqueou a saída. Por serem pouco conhecidos, Renato Moura e Jorginho da SOS saíram sem ser importunados.

 

Inicialmente, apenas a segurança da Casa protegia a porta. Depois, chegou reforço da PM. Parte dele, inclusive, num ônibus de linha regular, emprestado por uma empresa de ônibus. Segundo a PM, pelas regras de concessão do serviço, as empresas são obrigadas a ceder coletivos ao poder público em caso de grande necessidade.

 

Pouco antes do meio-dia, os vereadores tiveram que conceder uma entrevista para quatro representantes escolhidos pelo "coletivo". Dois jovens, o secundarista Raphael Almeida e o estudante de história Gabryel Henrici anotavam num pequeno papel as perguntas para "apertar" Jorge Felippe.

- A segurança barrou a entrada. Fechou a porta mesmo. Eu estava lá - instigou Raphael.

Jorge Felippe gaguejou, mas rebateu as acusações, inclusive dizendo que era do jogo democrático a decisão sobre a presidência de uma CPI. Após esses constrangimentos, os vereadores deixaram a sala por uma escada escondida, por volta das 14h.

Na segunda-feira, apesar de os funcionários terem sido liberados em meio às últimas e confusas horas, o Diário Oficial sairá normalmente. Mas, com certeza, não contará nem metade da história do que aconteceu no dia 9 de agosto de 2013.

 

 

 

Por Luiz Ernesto Magalhães e Ruben Berta

Fonte: O Globo